Radar da Participação #2: Diversidades e políticas do orgulho: a Parada LGBT de SP 2019

"As Paradas são políticas pois possibilitam a visibilidade da diversidade de coletivos, grupos, indivíduos e tribos que compõem a chamada “população LGBT+”, reforçando o sentido de resgate das ruas e dos espaços públicos enquanto palcos centrais da vivência democrática". Leia artigo de José Szwako (IESP-UERJ) & Gustavo Gomes da Costa (UFPE).

 

Dia 23 do mês passado a Avenida Paulista foi tomada por quase 3 milhões[1] de lésbicas, travestis, transgêneres, bissexuais, gays e até mesmo heterossexuais! Tal como nas maiores paradas do mundo em 2019, a comemoração temática dos “50 anos de Stonewall” entre nós caiu como uma luva na conjuntura política brasileira. Antenado internacionalmente e ancorado localmente, o slogan da Parada deste ano celebrou “Nossas conquistas, nosso orgulho de ser LGBT+”.

Os números impressionam em tudo. Dezenove trios elétricos com dezenas de estrelas, cantoras e cantores, trouxeram mais de 400 milhões de reais, segundo estimativas da Secretaria Municipal de Turismo[2]. As quase dez horas de festa tiveram direito também a um casamento coletivo em plena Av. Paulista. Do lado das autoridades, o apoio declarado do prefeito Covas Jr se fez refletir no efetivo de 800 policiais e unidades destacados para a segurança do evento.

Esses números são realmente impressionantes. Mas o que eles significam? Como podemos ler essas quantidades em termos de relações e no conjunto mais amplo do cenário sócio-político brasileiro? Para responder essas questões, vamos enfatizar duas dimensões que atravessaram, mesmo que discretamente, as formas de organização e articulação da Parada: as suas diversidades internas e o seu caráter fundamentalmente político.

Para além do sexual: articulando religiões, igrejas e LGBT+

Quando falamos em Parada, a concepção de diversidade que nos vem à mente é, de saída, diversidade sexual. No entanto, os grupos distinguidos por orientação sexual e identidade de gênero estão atravessados por uma série de outras clivagens e marcadores que também modelam esses sujeitos. Para o que nos interessa no espaço deste Radar, vamos destacar aqui a marca da diversidade religiosa que atravessou a Parada 2019.

Como fruto do esforço de grupos e coletivos religiosos que já vinham se articulando, este ano a programação ao redor da Parada contou com o “1º Congresso Igrejas e Comunidade LGBT+”.

Ocorrido na Paróquia da Santíssima Trindade (Diocese Anglicana de São Paulo), entre os dias 19 e 23 do mês passado, o Congresso teve mote os “diálogos ecumênicos para o respeito à diversidade”. Além de contar com o “Bloco Gente de Fé” no dia e na realização da Parada, o Congresso promoveu debates envolvendo pastoras, pastores, especialistas em Teologia, intelectuais e fiéis de diversas matrizes religiosas. Um dos eixos principais que nortearam os debates foi a necessidade de encarar os “desafios do acolhimento das pessoas da comunidade LGBTI+ [que] geram diferentes respostas nas comunidades religiosas”[3].

Foto: Júlio César Silva

Deste modo, aquém e além de uma só diversidade (sexual), a Parada de 2019 nos permite ver diversidades! E não se trata de qualquer forma de variedade. A mobilização de vários grupos de fé é, a nosso ver, potencial e politicamente frutífera dado o cenário regressivo mais amplo que ultrapassa em muito o cenário brasileiro.

Contra versões fundamentalistas da relação com o sagrado, a articulação entre igrejas e LGBT+ traz a público que estes grupos e sujeitos têm fé, como têm também direito a envolvimento e acolhimento em comunidades de filiação religiosa. Se o perfil religioso do público da Parada não é algo exatamente novo para os sociólogos da religião[4], o caráter inclusivo dos espaços e diálogos construídos entre grupos religiosos progressistas e fiéis LGBT+ pode ser indicador de uma novidade com potenciais emancipatórios para quem procura aqueles grupos e, quiçá, com efeitos civilizatórios para quem tende a moralizar e criminalizar tais sujeitos.

A Parada representa, também, a consolidação de um tipo público e coletivo de performance: a celebração do “orgulho LGBT+”, em chave lúdico-artística e estético-expressiva, como forma legítima de vocalização de demandas. Embora alguns ativistas LGBT+ eventualmente critiquem as Paradas por terem supostamente “perdido” o seu conteúdo político, tornando-se “carnavais fora de época”, não se pode negar o papel simbólico por detrás da manifestação e sua dimensão política. Numa sociedade altamente sexista, homofóbica e transfóbica como a nossa, na qual a mera troca de carícias em público por casais de pessoas do mesmo sexo pode resultar em violência verbal e mesmo física, vir a público exigir o direito de expressar sua orientação sexual e identidade de gênero ganha contornos transgressores/revolucionários da ordem sócio-sexual vigente. As Paradas são políticas pois possibilitam a visibilidade da diversidade de coletivos, grupos, indivíduos e tribos que compõem a chamada “população LGBT+”, reforçando o sentido de resgate das ruas e dos espaços públicos enquanto palcos centrais da vivência democrática.

O que nos dizem 3 milhões?

Por fim, voltemos àquele impressionante número de 3 milhões na Avenida Paulista. Este aumento expressivo do público na Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo neste ano aponta, a nosso ver, para a contínua relevância da dimensão política do evento. No contexto atual de início do governo de Jair Bolsonaro, eleito com uma agenda e uma campanha explicitamente hostis a grupos não-héteros e não-cisgêneros, a ocupação das ruas pelos diversos segmentos da população LGBT+ e da população heterossexual simpatizante das demandas dos direitos LGBT simboliza o rechaço ao avanço conservador em nossas principais instituições.

No atual cenário de fechamento dos canais institucionais de expressão das demandas da população LGBT+ em âmbito federal (haja vista a extinção do conselho nacional de combate à discriminação LGBT e a suspensão da conferência nacional de direitos LGBT+), as Paradas do Orgulho LGBT+ em todo o país convertem-se em verdadeiras plataformas políticas.

As Paradas seguem sendo espaços privilegiados tanto para dar visibilidade a identidades sexuais subalternizadas, como formas de resistência e crítica ao avanço do autoritarismo e de revigoramento dos ideais democráticos de liberdade e igualdade.    

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Para Saber Mais sugerimos para você alguns trabalhos recentes que explicam a importância do ativismo LGBT + para a democracia brasileira.

Diferenças, Igualdade - Heloísa Buarque de Almeida & Jose Leon Szwako (Orgs.)

http://www.berlendis.com/product.aspx?product=121

Moralidades, racionalidades e politicas sexuais no Brasil contemporâneo - Sérgio Carrara

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-93132015000200323

Na trilha do arco-íris - Regina Facchini e Julio  Simoes

https://teoriaedebate.org.br/estante/na-trilha-do-arco-iris-do-movimento-homossexual-ao-lgbt/

Políticas Públicas LGBT e Construção Democrática no Brasil – Cleyton Feitosa

Diversidade sexual, partidos políticos e eleições no Brasil contemporâneo. Gustavo Gomes da Costa Santos. http://dx.doi.org/10.1590/0103-335220162105

Estado, projetos políticos e trajetórias individuais: um estudo com as lideranças homossexuais na cidade de São Paulo. Gustavo Gomes da Costa Santos. http://www.repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/281507


[1] https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2019/06/24/parada-lgbt-reuniu-3-milhoes-na-paulista-segundo-organizacao-veja-o-que-deu-certo-e-o-que-deu-errado.ghtml

[2] http://paradasp.org.br/23a-parada-do-orgulho-lgbt-de-sao-paulo-movimentou-r-403-milhoes-segundo-levantamento-da-secretaria-municipal-de-turismo/

[3] https://igrejasecomunidade.wixsite.com/igrejaselgbti/i-congresso

[4] https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1906200508.htm

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